
Maria Vitória é o seu nome. Essa marca da luta gravada em seu nome não é em vão. Tem só quatro anos. Mora em um vilarejo no interior do Maranhão. Para sair de lá precisa pegar carona na caçamba da caminhote e viajar por 1 hora até a cidade de Santa Helena. Essa cidade está a quase 5 horas da capital maranhense, São Luís.
Depois das seis horas de viagem, chegou enfim na rodoviária. Pagou o ônibus com a vaquinha da família e de amigos e viajou mais 3 dias para chegar ao Rio. Ela e o pai, Seu José Domingos, foram trazidos por uma amiga até a Operação Sorriso. A mesma que ficava com a Vitória para Seu José ganhar um pouco mais no bico de ajudante de pedreiro que arrumou por aqui.
Lá no Maranhão eles moram em uma casa de sapê, sem geladeira, fogão e telefone. Vive de vender bananas. Quando é que pensava em operar sua filha? Jamais. Maria Vitória ia crescer assim: loira, fofa e cheia de problemas. Arredia, se esconde atrás do pai, não consegue ainda pronunciar nenhuma palavra. O marco psicológico do trauma que acompanha a tantos e tantos pacientes de fissura reflete o descaso e preconceito com que são tratados.
A agressividade inicial pouco a pouco foi sendo substituída por aceitação e demonstração de carinho. Vitória entendeu que estávamos ali para ajudá-la e o carinho que dávamos a ela voltava a nós pouco a pouco na espontaneidade de seus gestos. Um carinho no rosto, um afago no cabelo, um beijo! Vê-la reencontrando a via de uma infância saudável e carinhosa, sem traumas, sem medos infundáveis foi sem dúvida a nossa maior conquista. Um pontapé inicial, sem dúvidas.
Vitória que ficou marcada no rosto de alguém que recomeçou uma longa viagem de volta ao seu mundo, de casinha de sapê, da inocência, da simplicidade, da luta.
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